Adoção – Da Nobreza à Mediocridade

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A adoção é um tema global tão abrangente e contemporâneo quanto o avanço tecnológico dos últimos anos. O termo adoção é proveniente do latim “adoption”, que significa assumir oficialmente alguém como filho. Na língua portuguesa, a expressão significa tomar por filho, perfilhar, que traz a ideia de receber por filho segundo preceitos legais, considerar como filho, abraçar e defender como se fosse seu. Na concepção judaico-cristã, o termo aparece de forma explicita através da palavra grega “huiothesia” (Rm 8.15; Rm 9.4; Gl 4.5), expressão usada para demonstrar o desejo de Deus em estabelecer um relacionamento entre Si mesmo e os filhos, tornando-os participantes da sua natureza e reposicionando-os dentro de uma nova condição de vida. A palavra “huiothesia” é formada pela junção das palavras “huios”, usada para filho e “tithemi”, que significa colocar, estabelecer, pôr, significando então “estabelecer como filho”. No Antigo Testamento, o conceito de adoção é expressado por meio da posição de Deus em assumir a nação de Israel como seu primogênito, uma clara demonstração de uma postura paterna (Ex 4.33; Jr 31.9). Temos ainda, outro exemplo, do Rei Davi que acolheu no palácio o jovem Mefibosete (2Sm 9) que quando criança, fora acometido por um acidente que o deixou com uma deficiência física nas pernas. Ele era neto do Rei Saul, ao qual durante muitos anos em seu reinado, perseguiu o próprio Davi tentando matá-lo. Mefibosete estava órfão porque seu pai Jonatas havia morrido juntamente com seu avô em meio a uma batalha contra os filisteus. Quando Davi enviou Ziba para encontra-lo, Mefibosete vivia de esmolas na região de Lo Debar, (que significa “sem memória”), vivendo assim esquecido e à margem da sociedade. A história relata que Davi não apenas lhe concedeu abrigo, mas lhe deu um lugar de honra na mesa do Rei, restituindo o direito, resgatando sua memória e promovendo na vida deste jovem uma mudança de sua condição. Davi resgatou Mefibosete de uma condição social de vulnerabilidade e indignidade e tratou-o segundo a natureza real do próprio Davi.

 

ENTENDENDO O PANORAMA

Segundo dados do Conselho Nacional da Justiça (CNJ), atualmente existem 7.158 crianças aptas à adoção e 38 mil pessoas cadastradas no CNA (Cadastro Nacional de Adoção), sendo que no ano de 2016 foram formalizadas 1226 adoções no Brasil. Mas porque ainda temos tantas crianças disponíveis para adoção com um número tão grande de candidatos? Porque esta conta não fecha? Porque temos um problema de exigência dos adotantes. Algo até certo ponto legal, porque o próprio CNA permite que cada família tipifique qual tipo de criança eles desejam adotar, mas sem dúvida nenhuma, uma exigência imoral do ponto de vista do Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece que todas as crianças e adolescentes tem o mesmo direito a convivência familiar. A maioria destas 38 mil pessoas que estão na fila de adoção definiram o tipo de criança que atende seus desejos pessoais e que estão de acordo com sua conveniência social, nem que para isso, tenham que aguardar anos na fila até que “surja uma criança que atenda seus critérios”. Esta é uma manifestação clara de puro egoísmo e que se contrapõe a um ato de amor. Quando uma pessoa escolhe “amar” apenas um tipo de pessoa específica, descobre-se que tal pessoa ainda desconhece a essência do amor, que é acima de tudo inclusivo e benigno, pois se estende a todos.

Este panorama revela ainda um sintoma de uma doença degenerativa da sociedade contemporânea, a crise de identidade do ser, que gera em cada pessoa um vazio existencial. Pessoas que sofrem deste mal, buscam a todo momento suprir a necessidade da autoafirmação por meio da aceitação social, mostrando que a sociedade contemporânea é regida pela ética da personalidade, que nada mais é que a busca pela preservação da imagem pessoal perante as outras pessoas, da realização de atos de bondade aparente que são utilizadas como marketing pessoal para ampliar o círculo de reconhecimento e autoafirmação, onde se prioriza sempre a aparência em detrimento da essência, promovendo desta forma, uma aparente rede ampla de relacionamentos interpessoais, que é mascarada por relacionamentos egoístas e utilitários. Para piorar essa degeneração social, percebemos um outro problema de aspecto criminal, escondido de forma sútil por trás da “escolha do perfil de criança ideal” nos postulantes à adoção: a segregação racial. Tal cultura segregadora ainda permanece impregnada em uma sociedade desenvolvida em termos tecnológicos, mas que está em um vertiginoso retrocesso em suas relações sociais.

O termo segregação é muito mais abrangente e profundo do que o termo discriminação (separar, injuriar, ofender, humilhar), porque envolve uma cultura social que impede que pessoas de determinadas origens étnicas ou sociais usufruam de um direito que pertence a todos.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que é a legislação vigente sobre o tema no país, afirma que todas as crianças e adolescentes, sem exceção, tem direito a proteção e ao desenvolvimento integral, ao convívio familiar e comunitário, à inclusão social em geral e a todos os direitos fundamentais inerentes a pessoa humana. Isto significa que, temos nos dados do CNJ uma demonstração de quão terrível é a realidade desta segregação, escancarada pela estatística de que há 5,4 famílias candidatas para cada criança ou adolescente apta para adoção. Quando uma família se inscreve em um programa de adoção tendo como parâmetro de escolha a segregação racial e social (condição de idade máxima), ela age como se estivesse na sua mão o poder de decidir qual criança tem o direito ou não a uma família. Esta família corrompe a justiça por meio da acepção de pessoas e do estabelecimento de preferência de juízo, o que é uma afronta a justiça plena, que é defendida pela constituição brasileira, e parte fundamental da ética do caráter, a qual serve de padrão para qualquer relacionamento interpessoal. O que tais famílias desconhecem, é que há um Princípio eterno de justiça, que é universal, atemporal e imutável. Este Princípio contém em si a relação de causa e efeito, chamado de “medida por medida”, isto é, na mesma medida que exerço um juízo é que sou julgado, na mesma medida em que faço acepção de pessoas sou afligido pelo ser preterido por outras pessoas, na mesma medida que privo alguém de um direito que é inerente a todos, serei privado também em algum momento de algum direito que é de todos. Toda família que se cadastra em um programa de adoção de forma voluntária e estabelece um perfil de criança extremamente detalhista e rígido, está na verdade, rejeitando todas as outras que são tão carentes de uma família quanto aquela do “perfil idealizado”. Trata-se então a adoção não mais como uma expressão de amor por meio do resgate e da inclusão familiar, mas uma expressão egoísta de tratar a criança ou adolescente como um objeto escolhido numa prateleira de uma loja e que precisa atender a determinados critérios para serem aceitas.

A maioria destas 38 mil pessoas que estão na fila de adoção definiram qual criança atende seus desejos pessoais e que estão de acordo com sua conveniência social, e por isso, preferem aguardar anos na fila até que “surja” uma criança que atenda seus critérios.

ASSUMINDO AS DUAS PONTAS

O ECA traz critérios de adoção que visam proteger a criança e não satisfazer os “desejos” dos adotantes. Não se pode entrar num processo de adoção pensando em suprir o vazio interior de uma vida sem sentido e sem propósito, porque não se pode amar de forma verdadeira uma criança que foi tratada desde o começo como um “objeto com determinada configuração”. Uma pessoa vazia não pode expressar amor, porque ela, na verdade, sofre também de um tipo de orfandade, porque carece de um referencial de amor genuíno. Existe um ditado judaico que afirma que quando você segura uma vara por uma ponta, automaticamente você está segurando a outra ponta, ou seja, entendemos que a adoção de um lado é uma questão de justiça para com o órfão.

Quando uma família adota uma criança se resgata o direito a paternidade, ao cuidado e desenvolvimento integral e à uma herança familiar que possibilitará que esta criança ou adolescente se torne também um agente de transformação social.

Isso significa que, quando pegamos a vara da adoção por uma ponta, estamos pegando também a outra ponta da vara, que representa uma justiça que transcende a legislação brasileira, mas que está contida na essência de tudo o que existe. Esta justiça nada mais é do que a prática do amor como uma atitude e um compromisso com o próximo, segundo o padrão do próprio Deus, que acolhe seus filhos independente de traumas sofridos, de seu histórico do passado, de sua aparência física, de sua condição social, de sua raça ou etnia, porque a ação Deus visa justamente oferecer ao novo filho uma oportunidade de receber uma nova natureza, de desfrutar de uma nova condição de vida e de receber o direito à uma nova herança. Vemos isto de forma muito clara na maneira como Davi tratou Mefibosete. Porém, quando um casal escolhe não adotar uma criança por ela ser negra ou por não ter uma determinada idade, está na realidade, perpetuando a injustiça, pois neste caso, a criança ou adolescente, deixa de ser o foco da ação, da intenção e da finalidade do amor dirigido, se tornando um objeto de desejo, um instrumento de status para reconhecimento e aceitação. É neste momento que a adoção deixa de ser um ato de nobreza devido a uma intenção medíocre.

 

AMOR QUE SUPERA A PREFERÊNCIA

Precisamos entender que a adoção é um ato de justiça, de amor e de expressão plena da vida. Quanto mais tempo uma criança ou adolescente permanece num ambiente de acolhimento institucional, mais sentimentos são alimentados e enraizados no interior dela. Enquanto famílias “estão ansiosamente esperando a criança ideal”, nos abrigos as crianças continuam sendo assombradas e escravizadas por sentimentos provenientes do medo, alimentado pelos traumas do passado do sentimento de rejeição por parte de pais que simplesmente escolheram não criá-los, traumas estes muitas vezes fortalecidos pelas feridas e raízes de amargura emocionais causadas pela violência familiar que sofreram e pela aniquilação repentina de seu ambiente de convívio comunitário e social. Estas crianças e adolescentes, se tornam então vítimas de uma mutilação física, emocional, intelectual, espiritual e social por causa da rejeição e da violência daqueles que deveriam ser o que mais deveriam protege-las. Porém, agora, na “fila da adoção”, por não atenderem “a expectativa e o perfil de famílias adotantes que querem uma criança ‘o mais’ branca possível e de no máximo 4 anos de idade”, estas crianças e adolescentes continuam sendo condenadas e mutiladas de uma forma ainda mais cruel através do egoísmo e segregação. Novamente são desprezadas e violentadas em seus direitos por não serem brancas ou já terem mais de quatro anos. Temos então 7.158 crianças condenadas a uma vida de medo e incerteza pela ausência de um referencial de família, simplesmente porque “não atendem” a um padrão estético egoísta. Estas crianças não lembradas pela sociedade e privadas de seu direito fundamental, mesmo que estejam sendo cuidadas e protegidas em abrigos institucionais que dentro de suas possibilidades tentam fazer o melhor por elas, precisam de um ambiente adequado para o seu desenvolvimento físico, social, emocional, intelectual e espiritual tão fundamental a qualquer indivíduo.

Enquanto famílias “estão ansiosamente esperando a criança ideal”, nos abrigos as crianças continuam sendo assombradas e escravizadas por sentimentos provenientes do medo e da rejeição.

O ECA condena atitudes que ferem o direito das crianças e adolescentes. A ética do caráter condena tal ato egoísta e a constituição brasileira considera a segregação como um crime passível de prisão (Lei 7716/89). Imagine que se você fosse um doente terminal e precisasse urgentemente de um transplante de fígado ou de coração, e o médico lhe dissesse que encontraram um doador compatível, mas na hora de você entrar na sala de cirurgia descobre que o doador não é “tão branco” e possuía idade avançada, o que você faria? Rejeitaria a doação e preferiria não tentar viver ou neste momento o principal objetivo seria tentar salvar a sua vida? É exatamente como um ato de salvar uma vida que precisamos pensar adoção. Mas salvar do quê? Da falta de referenciais de vida, do medo, do sentimento de abandono e rejeição, dos traumas da violência, da privação do viver em família, da indignidade de ser esquecida, de não ter esperança sobre o futuro. E como podemos salvá-las? Acolhendo-as independente de sua raça, idade, limitação física ou psicológica, expressando o amor genuíno que cura traumas emocionais, protegendo-as através do abraço carinhoso e afetivo, auxiliando-as em seu desenvolvimento pessoal em meio as dificuldades e desafios inerentes a cada fase da vida. Como família, reservando um lugar a mesa para que se sintam parte de algo muito maior, para que desfrutem do prazer de viver em família e em sociedade, que tenham oportunidade de aprender com os momentos de alegria e também de tristeza que fazem parte rotina familiar. Salva-las através da redenção de sua identidade, da promoção da sua dignidade, e extensão do direito à uma herança que transcende recursos ou patrimônio, pois é composta de valores de vida que serão transmitidas as suas gerações futuras.

 

REESCREVENDO A HISTÓRIA

Precisamos levantar cada vez mais alto a bandeira da adoção, mas não podemos de deixar de denunciar a segregação racial e social nos processos de adoção em nosso país. Estas crianças não precisam de famílias que estabelecem critérios de como elas devem ser, mas de famílias que se tornam plataforma de desenvolvimento para que elas se tornem quem nasceram para ser. Precisamos de famílias que se disponham a ama-las como pessoas. Precisamos de famílias que as abracem e que promovam um ambiente familiar verdadeiro e livre, para que sejam saradas e transformadas, que sejam plenas e alegres, e acima de tudo, tratadas com dignidade. Das 64 milhões de famílias existentes no Brasil, precisamos só de 7.158 que digam sim a uma criança ou adolescente apta para a adoção. A melhor forma de combatermos a segregação racial e social nos processos de adoção do Brasil é abrindo nossas casas e as incluindo em nossas famílias, ajudando cada criança e adolescente que hoje fazem parte desta triste estatística a escrever uma nova história de vida.

  • Marcelo Souza
    Marcelo Souza Coach

    Marcelo Souza, natural de Curitiba, casado com Zélia Souza e pai da Júlia. Atua como Coach na empresa Illumine Coaching (www.illuminecoaching.com.br) cooperando com o desenvolvimento de pessoas e empresas em todo o Brasil. A base de seu trabalho é a convergência à princípios que regulamentam tudo e que possibilitam o alcance de resultados excelentes, consistentes e sustentáveis. Sua metodologia de trabalho é voltada para o desenvolvimento da integralidade da vida, ampliação de competências, mobilização de mentalidade corporativa e consolidação de equipes de trabalho. Juntamente com sua esposa, integra a equipe da Missão Mobilização (www.mobilizacao.com), organização voltada para desenvolvimento humano integral, mobilização cultural e edificação social, além de atuar no Conselho Deliberativo da Acridas – Associação Cristã de Assistência Social (www.acridas.org), organização não governamental de acolhimento institucional e familiar de crianças e adolescentes em situações de risco, representando a instituição no Fórum DCA/PR que mobiliza conscientização das organizações civis e públicas quanto ao cumprimento do Estatuto da Criança e dos Adolescentes.

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