Tetsavê

 In Tetzaveh

Na parashat Terumá, vimos que D’us deu instruções ao povo judeu para construção do Tabernáculo, o meio pelo qual Ele viria morar neste mundo e dentro de cada um de nós. Uma vez que a Torá é eterna e suas palavras se aplicam tanto no âmbito pessoal como ao histórico, essas instruções, com todas suas minúcias, também nos ensinam a construir um Tabernáculo: a transformar nós mesmos, nossa vida e nossa esfera de influência em um “lar” para D’us, refinando-nos para que sejamos imbuídos de consciência Divina e possamos mantê-la.

Porém, depois de pronta, a casa deve ser habitada. O Tabernáculo em si é apenas um palco vazio: uma estrutura perfeitamente “configurada” para a espiritualização da realidade, mas que precisa ser utilizada. A conexão que foi estabelecida deve ser ativada. Portanto, quando D’us termina de transmiti-los as orientações para a edificação do Tabernáculo, é necessário que Ele nos diga como usá-los. Após Terumá vem Tetsavê, que significa “ordenarás” , mas também “conectarás”.

Assim, na parashat Tetsavê, D’us descreve os sacerdotes, que oficiarão no Tabernáculo, e como eles serão empossados no cargo.

 

O DESENVOLVIMENTO DO SACERDOTE

É verdade que, quando nos entregou a Torá no monte Sinai, D’us prefaciou a revelação com a promessa de que “vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. O Eterno, espera que todos sejamos um sacerdotes, inteiramente consagrados ao serviço a D’us, tão imbuído de consciência Divina, que ela o toma por completo, abarcando todo o seu ser.

Esta porção é importante, pois trabalha a subjetividade do reino que culminará na objetividade – unidade sacerdotal; nesta, há um processo de desenvolvimento de sacerdotes, composto por duas fases: o todo de vesti-lo com os paramentos sacerdotais, descrito na primeira metade da parashat, e a execução dos ritos de sua investidura no cargo, relatada na segunda metade.

A primeira etapa refere-se ao revestimento da substância messiânica em nós, dada a partir da confissão em Yeshua, recebendo assim a regeneração, a partir deste revestimento, o ser torna-se um sacerdote e, assim pode desempenhar o seu ofício – sacerdotal. A Torá, sendo a Instrução do Eterno, nos norteia em como devemos nos desenvolver como sacerdotes deste Reino.

 

A PRESENÇA

Tetsavê, contém dois trechos mais breves que, aparentemente, caberiam melhor na parashat anterior. Logo no início, Moisés recebe ordem para preparar o azeite para as lâmpadas do Candelabro e, no final, para construir um altar de incenso que será colocado no recinto externo no Tabernáculo.

É particularmente inquietante que o mandamento da edificação do altar de incenso esteja no fim da parashat. A Torá nos diz aí, efetivamente, que toda a descrição extensa e detalhada do Tabernáculo e do ofício sacerdotal é apenas o prelúdio ou antecedente para esse altar. De fato, o Midrash afirma que, depois que “o Tabernáculo e todos os utensílios foram concluídos, e todos os ritos de investidura foram realizados […] a presença Divina não desceu [nem se manifestou] até que o incenso fosse oferecido”. Deve-se ressaltar que, o incenso foi produzido pela comunidade e, todos levaram ao Tabernáculo afim de oferecerem ao Eterno; somente após esta ministração sacerdotal, A Presença é manifesta.

 

O INCENSO

O incenso se diferencia fundamentalmente das outras oferendas feitas no Tabernáculo, se em si mesma uma categoria. O propósito das demais oferendas e sacrifícios é elevar ou refinar o aspecto físico e corpóreo do nosso ser, enquanto o incenso tem a finalidade de ligar nosso espírito a D’us. Em hebraico, a palavra “sacrifício” (corban) significa também “[meio de] aproximação”, e a palavra “incenso” (ketoret), “[meio de] ligação”. Os sacrifícios e outras ofertas envolvem principalmente os quatro sentidos mais “físicos” – tato, visão, audição e paladar -, ao passo que o incenso mobiliza nosso quinto sentido, mais “espiritual” – o olfato.

A construção de uma morada – o Tabernáculo -, e o ofício sacerdotal tornam efetiva a morada da Presença Divina entre o povo, como evidenciam os versículos sintéticos com que se encerra sua descrição (logo antes da Torá expor o mandamento de construir um altar de incenso):

“Lá [na tenda da reunião] Me reunirei com os israelitas, e ela será assim santificada por Minha Glória. Santificarei a Tenda da Reunião e o Altar [externo], e santificarei Aarão e seus filhos para que me sirvam como sacerdotes. Morarei no meio dos israelitas e serei o seu D’us. Eles saberão que Eu Sou D’us, seu D’us, que os tirei do Egito para habitar entre eles; Eu Sou D’us, seu D’us.”

 

AO ACENDER AS LÂMPADAS

Há um lugar ainda mais profundo a ser atingido posteriormente: a ligação plena entre D’us e os homens, não apensas uma morada de D’us dentro de nós. É o que se obtém com o incenso, por meio do qual deixamos de ser entes separados de D’us que são capazes de “hospeda-Lo” e nos tornarmos unos com D’us, não mais apartados dEle. O aroma do incenso nos transporta ao nível mais elevado de nossa essência, onde somos parte do Criador.

No entanto, como constatado ali em cima, o propósito da vida não é meramente alcançar essa transcendência sublime de total Consciência Divina, e sim trazê-a à realidade. Isso se reflete na relação interessantíssima entre a queima do incenso e o acendimento das lâmpadas do Candelabro:

“Aarão queimará incenso de especiarias sobre [o altar inteiro]. Queimá-lo-á toda manhã, ao limpar das lâmpadas. Aarão [também] o queimará quando acender as lâmpadas à tarde – oferenda contínua [isto é, diária] de incenso diante de D’us através de vossas gerações.”

Em outras palavras, a queima do incenso estava associada ao acendimento das lâmpadas do Candelabro. De fato, a tradição nos ensina que o incenso era queimado no meio do ritual de acendimento das lâmpadas.

O Tabernáculo não tinha janelas, mas o Templo permanente em Jerusalém, que o substituiu, as possuía. Eram janelas, porém, diferentes das usuais. As janelas típicas dos edifícios antigos eram estreitas na parte externa e largas na interna, para que a luz vinda de fora se difundisse pelo aposento. As janelas do Templo foram feitas de modo inverso: largas na parte externa e estreitas na interna, como que para possibilitar que a Luz do Candelabro se propagasse pelo mundo. Logo, o Candelabro tinha a finalidade de transmitir a Consciência Divina contida no altar de incenso que lhe ficava próximo e disseminá-la por toda realidade. Dessa maneira, o propósito de D’us para a criação pode concretizar-se genuinamente; o mundo inteiro obtém a consciência Divina da Visitação do Eterno, tornando-se um Lar.

O candelabro cumpre esse objetivo, porque sua luz era uma simples manifestação física da verdadeira luz do mundo, o Espírito: “A lâmpada de D’us é o espírito do homem.” Nosso espírito irradia luz quando somos iluminados pela Instrução de D’us – Yeshua -, e o vivenciamos.

DIFUNDINDO A CONSCIÊNCIA

Assim como os sacerdotes queimavam o incenso e acendiam o Candelabro com regularidade, no decorrer do ritual diário do Tabernáculo, devemos renovar nossa ligação intrínseca com D’us e difundir essa Consciência pelo mundo continuamente.

Está claro, portanto, por que os trechos que descrevem o acendimento do Candelabro e o altar de incenso compõe esta parashat, ainda que, logicamente, pudessem parecer mais bem situados na parashat Terumá. Juntos, eles sintetizam a mensagem de Tetsavê, a realização do potencial da habitação Divina pelo ofício sacerdotal. Por meio do incenso, o homem torna-se uno com D’us – membro pleno do “Reino de Sacerdotes” e da “Nação Santa” -; em seguida, por meio do Candelabro, ele transforma o mundo em um grande Templo de D’us.

  • Matheus Lapa
    Matheus Lapa Estudante de Hebraico Bíblico e Filosofia

    Matheus é um jovem de 19 anos de Itajaí-Sc, estuda Hebraico Bíblico e Filosofia e desenvolve um trabalho voltado ao ensino das sacras escrituras em sua comunidade local, o Mevam Sede. Atualmente está desenvolvendo projetos voltado para área de empreendedorismo bíblico.

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