O DILEMA DA CULTURA CRISTÃ

INTRODUÇÃO

Mais do que nunca, muitos ainda sofrem do que podemos chamar de “síndrome de Éfeso“, a dor do “muito saber e pouco fazer”. João escrevendo a igreja de Éfeso, reconheceu seu perseverante trabalho apologético colocando a prova aqueles que se declaravam apóstolos, mas não eram. Isso é reconhecido como uma boa obra, porém, colocaram “tantos outros” a prova que não se deram conta do seu próprio esfriamento, abandonando o primeiro amor, associado pelo autor, a prática das primeiras obras. É como saber que o mandamento é o amor, mas não amar o mandamento. Eis dilema do saber intelectual versus o saber experimental.

Tão importante quanto posicionar-se corretamente contra ventos doutrinários que enganam a muitos, é guardar o coração da burocratização intelectual e apresentar-se aprovado no ensinar pelo fazer.  Devido a esse abismo entre o que sabemos e o que fazemos, muito se sentem mal, pesados, condenados e frustrados. Portanto, é preciso lembrar que não existe nada autônomo ou separado em Deus e em sua criação, porque tudo se relaciona e se completa. Em Deus há integridade do ser.

Morte é separação e quando algo se separa alguém experimenta algum tipo de morte. Quando algo se separa dentro de nós, algo morre. Então, como conciliar de forma coerente e testemunhal aquilo que sabemos com aquilo que fazemos? Nosso objetivo é apontar o caminho para chegarmos juntos nessa realidade. 

Tenhamos cuidado com o veneno servido no copo de água cristalina. Toda vez que alguém diz: Oração é mais importante que doutrina, ou que a obra é mais importante que os relacionamentos, ministra-se morte, porque morte é separação. Quebra-se a integralidade da mensagem. Essas palavras podem matar algo dentro de quem as ouve.

O DILEMA DA ÁRVORE E O SEU FRUTO

Temos como propósito apontar o caminho unificador do que sabemos com o que fazemos. Visamos produzir a tão falada cultura cristã, que, segundo a definição formulada por Edward B. Tylor, cultura é: 

“Todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

Cultura é como as pessoas de uma sociedade se expressam. Cultura é tudo que produzimos a partir de tudo o que temos dentro, tudo o que somos. Cultura é cultivo. Todos somos agentes culturais e ninguém está isento de produzir cultura. Não existe neutralidade no campo da produção cultural porque toda árvore é conhecida pelos seus frutos.

Portanto, somos e seremos conhecidos pelo tipo cultura que produzimos, pelo tipo de comportamento que temos, pela forma como nos expressamos e a quem expressamos. Essa é uma verdade radical. Uma árvore boa não pode produzir maus frutos e a má não pode produzir bons frutos (Mateus 7:17-18).

Se cultura é o que fazemos (produzimos) a partir do que temos dentro de nós como pensamentos, sentimentos e vontades, onde está o que sabemos? Talvez o que sabemos não esteja tão dentro de nós quanto imaginamos.

O DILEMA DOS QUATRO TIPOS DE SOLO

Todos já ouviram sobre a parábola do semeador, mas nem todos percebem sua importância. A parábola do semeador é conhecida como parábola fundamental para o desenvolvimento da vida cristã, uma vez que o próprio Cristo diz:“Vocês não entendem esta parábola? Como, então, compreenderão todas as outras?” (Marcos 4:13). Entende-la pode significar encontrar a chave para a compreensão de todas as outras.

Jesus explica abertamente aos discípulos que a semente é a palavra do Reino. A semente tem poder latente de vida em si mesma, e através do seu embrião, em condições favoráveis, nasce, cresce e frutifica. Assim a Palavra de Deus é Viva em si mesma (Hebreus 4.12), e a medida que é lançada encontra diferentes níveis de correspondência. O nível de penetração e profundidade da palavra determina o nível de produtividade.

É comum colocarmos toda a nossa expectativa de produtividade sobre a palavra que ouvimos, mas na verdade, essa parábola prova que a condição de quem ouve a palavra é determinante para que ele frutifique. Portanto, tão importante quanto o que é falado, é a condição de quem está ouvindo. Pessoas podem ouvir a palavra certa com a disposição interior errada, e no fim das contas, podem dizer que a palavra deu errado por não frutificar.

A verdade é que muito daquilo que ouvimos simplesmente se perde, por falta de penetração, de internalização, de guardar no coração, de trazer do campo das ideias para dentro do centro da vontade. Para um geração do povo de Israel a palavra não teve proveito por não ter sido acompanhada de fé, por não haver resposta. Quem foi que falhou? A palavra falada ou o ouvinte da palavra?

“Pois as boas novas foram pregadas também a nós, tanto quanto a eles; entretanto, a mensagem que eles ouviram, de nada lhes valeu, pois não foi acompanhada de fé, por aqueles que a ouviram”. Hebreus 4:2

Fé não é acreditar na palavra de Deus, mas responder a palavra de Deus. A fé não responsiva é infiel, porque falha na sua falta de resposta, e é  incrédula na sua essência, porque ouve tudo, acredita em tudo, mas não move-se em nada. É importante lembrar que os homens lembrados por sua fé, não foram lembrados pelo quanto acreditaram, mas pelo quanto responderam. Pela fé Abel levantou um altar, Noé fielmente construiu uma arca, pela fé Abraão respondeu ao chamado para uma terra.

A parábola do semeador no primeiro momento, fala de uma semente para quatro tipos de solos. O solo da beira do caminho, é o coração endurecido, obstinado, sujeito a atuação de demônios (Lucas 8:12), a vegetação rasa entre as pedras, fala do empolgado irresponsável, que grita na hora que ouve a palavra, mas não aprofunda-se no processo de cultiva-la interiormente. Esse novo nível de dureza interior disfarçada de espiritualidade, revela-se quando a palavra é colocada a prova.

Além da resistência pelo endurecimento, tem a dificuldade do sufocamento da ansiedade pelas coisas da vida cotidiana, impedindo que a palavra cresça e frutifique. A boa terra está representada naquele que com boa disposição de coração retêm a palavra (Lucas 8.15).

Para que existe cultura cristã, a palavra que ouvimos precisa ser cultivada diariamente, até que a seu tempo, floresça no mundo, sendo pressionada pelo calor da terra.

O DILEMA DO QUE SABEMOS E O QUE FAZEMOS

Podemos nos aprofundar nisso, ao ver o que Jesus fala sobre treze males que saem de dentro do coração do homem (Mateus 15:19). O que sai de dentro de nós é coerente com o que sabemos que deve sair de nós? Se não fazemos o que sabemos, de onde vem o querer do que fazemos? Se não fazemos o que sabemos, onde está o que sabemos? 

Qual o nosso nível de envolvimento com o que sabemos? O que sabemos precisa ser interiorizado e isso implica engajamento interior. Precisamos aprender o que sabemos. O processo de internalização acontece por meio do meditar sobre o que ouvimos, do cultivar pensamentos regenerados, do engajamento por meio da disciplina.

Como pensamos disciplina? Pensar na disciplina de forma penitencial, baseada na dor da abstinência é tão penoso e pesado quanto não fazer o que sabemos. Propomos, então, o caminho da disciplina baseada na experiência saborosa. Davi encontrou prazer na meditação.  Salmo 119:92 diz: “Se tua lei não fosse o meu maior prazer, o sofrimento já me era consumido”. Salmo 119:174 diz: “A sua lei é meu maior prazer”. Sobre que conselho andamos?

Feliz o homem que não anda segundo o conselho de quem não conhece a Deus, nem se deixa influenciar pela conduta dos pecadores, antes sua plena satisfação está na lei do Senhor, e nela medita dia e noite (Salmo 1:1).

Como alcançar isso? O que estamos ouvindo? O que há entre o que ouvimos de Deus e o que fazemos para Deus? Um exemplo que pode ajudar a entender esse princípio é, ao invés de sofrer por não consumir mais açúcar, encontrar prazer no doce das frutas.

O DILEMA DO OUVIR E O GUARDAR

Deus disse a Josué: “Ninguém poderá te resistir… jamais te abandonarei…Sê forte e destemido porque farás este povo herdar a terra. Tão somente sê, de fato, forte e corajoso para teres o zelo de agir de acordo com todos os mandamentos da lei…”. Então Josué seria “bem-sucedido em todas as sua realizações”.  

Todos sabemos que Josué chegou lá! Como conseguiu? O que há entre a palavra de Deus e o ser bem-sucedido? Ele deveria meditar dia e noite e se envolver com o que ouviu!

Ouça o que Deus disse e fale com você mesmo sobre o que foi dito até que cada palavra seja interiorizada. Aprenda a falar com você mesmo sobre os pensamentos de Deus. Se a cultura é o que produzimos a partir do que temos dentro, devemos trazer tudo que ouvimos para dentro de nós.

Na terminologia bíblica, ouvir está diretamente relacionado com guardar. Estamos diante de uma lógica fundamental, se ouvir ouvir é guardar, guardar é obedecer. Por isso, o salmista declara guardar sua palavra dentro do coração, no centro da vida, para não pecar contra Deus. A medida que guardamos somos guardados. desde os dias de Cain, o homem vive o dilema de guardar seu coração.

“Se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos porque toda a terra é minha” Êxodo 19:5

Existe um fluxo na dinâmica de ouvir e guardar que precisa ser desobstruído. Ouvimos muito e guardamos pouco do que ouvimos, de tudo que ouvimos, pouco cumprimos, e seguimos procurando coisas novas para ouvir. Seria acumulo intelectual sem inteligência? Segundo o Tiago Cavaco, pastor da igreja da Lapa em Portugal:

“Para os judeus, alguém que compreendia bem uma coisa tinha igualmente de vivê-la bem. Porque, se alguém fosse supostamente sábio na teoria e não conseguisse pôr em prática essa sabedoria, não seria chamado de sábio. Provérbios foi escrito numa cultura que não daria crédito para sabedorias abstratas, apenas para as concretas”.

O DILEMA DAS TRÊS NATUREZAS

Não estamos pensando os frutos da cultura cristã a partir da força do hábito, porque não trata-se de uma mecânica biológica ou psíquica, mas de uma atuação do Espírito Santo por meio da palavra que ouvimos (Gálatas 5:16). Estamos falando de uma terceira natureza. A primeira natureza está representada nos sistemas biológicos subconscientes, por exemplo, não pensamos para respirar ou digerir alimentos. 

A segunda natureza, mencionada por Aristóteles, se trata da natureza representada no poder do hábito, que a partir da prática do comportamento se torna como respirar ou piscar. É a automação mecânica do comportamento como dirigir um automóvel de casa para o trabalho.

Porém, quando se trata da vida cristã somos impotentes moralmente, Não somos bons o bastante para vivermos o padrão de Deus sem Deus. Portanto, só é possível encarnar o testemunho do Cristo ressurrecto a partir da operação do Espírito Santo em nós.

A terceira natureza é de natureza espiritual e é expressada em uma espiritualidade inteligente. Está além da natureza biológica subconsciente e da natureza mecânica consciente porque se trata do desenvolvimento da natureza espiritual racional e relacional, da fé que vem pelo ouvir a palavra de Cristo (Romanos 10:17). O homem carnal viciado em sentir precisa encontrar espiritualidade no pensar, ouvir e guardar a palavra de Deus, porque pensar é espiritual. 

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” Gálatas 5:22.

CONCLUINDO

A fé vem pelo ouvir a palavra de Cristo, e à  medida que nos envolvemos com o que ouvimos, e repensamos no que ouvimos, cultivamos a palavra do Reino, lançada como semente, sobre o terreno no nosso coração. O processo do cultivo dá tempo ao Espírito de Deus, para que opere em nosso querer e realizar segundo a vontade de Deus. Paulo fala sobre esforçar-se segundo o poder de Cristo que opera poderosamente nele (Colossenses 1:29), assim como, Deus é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós (Efésios 3;20).

Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente. Filipenses 2:14

A partir dessa dinâmica naturalmente espiritual, evidenciamos as virtudes do Espírito, experimentamos florescer uma nova cultura cristã e expressamos Cristo na vida prática. Se não nos ocuparmos com o que estamos ouvindo, estaremos perdendo tempo e esforçando-nos inutilmente.

Nathan D. Wilson, em seu livro Morrer de tanto Viver, diz: “O que é cristianismo encarnado? Se você pensa algo, viva-o. Se não vive, não está pensando de verdade. Você é o que faz”. 

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