Todos desejam um tipo de reino, mas nem todos acessam a realidade do Reino de Deus. O Reino de Deus é uma realidade Eterna, na qual Deus é o Senhor Soberano, o Filho possui toda Autoridade nos céus e na terra, e o Espírito é aquele que está em missão, preparando o caminho para o estabelecimento desta realidade entre a humanidade.
Em certa ocasião, Nicodemos foi ao encontro de Cristo durante a noite. Nesta oportunidade, foi confrontado a respeito do novo nascimento, pois reconhecia Jesus como um Rabi, e por causa dos sinais e milagres realizados por Cristo, sabia que Deus era com Ele. Porém, sua visão sobre Cristo, estava limitada pela sua incapacidade de reconhecer Cristo como o Messias anunciado pelos profetas. Apesar de ser um membro do Sinédrio, não via e nem acessava o Reino de Deus, porque não havia experimentado o novo nascimento.
É interessante perceber que em um momento do diálogo, Jesus afirmou que o testemunho a respeito da pessoa de Cristo, era a evidência do processo do novo nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que vimos, e não aceitais o nosso testemunho” (Jo 3.10), pois o Espírito é um com o Pai e o Filho, e por ser a verdade, carrega em si mesmo o testemunho desta realidade relacional (1Jo 5.6-8).
A Conversão: Uma Atitude Pessoal
A conversão significa um caminho de volta a um lugar designado. A palavra שוב (shuwb) que é traduzida como retornar ou voltar, é uma expressão que aparece mais de mil vezes no Antigo Testamento. Para a cultura hebraica, representa um retorno integral, legal e posicional. Um exemplo da aplicação desta palavra, se encontra no momento em que Jeremias instruiu os hebreus, para que se convertessem dos seus maus caminhos, e da malignidade das suas atitudes (Jr 25.5)
Já no Novo Testamento, encontramos a palavra επιστρεφω (epistrepho), que também é traduzida por retornar ou voltar-se. Esta expressão é encontrada no discurso de Pedro no pórtico de Salomão: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos para que assim sejam apagados os vossos pecados” (At 3.19). É interessante observar que neste texto, também encontramos a expressão μετανοεω (metanoeo), que significa uma mudança da disposição da mente e de coração, ou em outras palavras, a mudança de propósito dentro de nós a respeito da vida. Enquanto o arrependimento envolve um postura interior, de um posicionamento a respeito do pecado e do relacionamento com Deus, a conversão envolve uma postura prática em resposta a esta disposição interior.
Mas como acontece a conversão? Ela é uma ação de Deus ou uma responsabilidade do homem?
Na concepção hebraica, conversão implica em dar uma volta completa em torno de todo seu corpo e voltar-se para Deus (LADD, 1974)
A conversão é o ato do homem voltar-se para Deus. É uma atitude pessoal de correspondência ao convencimento do Espírito sobre o pecado, a justiça e o juízo de Deus. Está associada intimamente ao arrependimento e a fé. Enquanto o arrependimento está relacionado a uma mudança na mente em relação ao pecado e a Deus, a fé envolve a confiança na pessoa de Deus. Portanto, a conversão envolve um fruto do arrependimento e da fé, uma mudança de direção de vida (ZACARIAS, 1999).
Na Parábola do Filho Pródigo (Lc 15.1-24), vemos este movimento acontecendo. Quando o filho, que havia rejeitado o ambiente de relacionamento com o pai, se viu em meio a uma crise de solidão e sem nenhuma perspectiva de vida, caiu em si e reconheceu seu pecado (arrependimento). Em seguida, acreditou na disposição amorosa de seu Pai (fé), e levantou-se, indo ao seu encontro (conversão). Desta maneira, podemos definir que a conversão é a resposta prática à convocação do Espírito, para nos voltarmos para Deus com todo nosso coração (Os 6.1).
A Regeneração: Uma Obra do Espírito
Talvez você já tenha ouvido que antes da nossa conversão éramos criaturas, mas que a partir dela, nos tornamos filhos. Mas será que tal afirmação é uma verdade bíblica ou um sofisma evangélico?
A expressão criatura está relacionado a um ser vivo criado. Nesta classe se encontram os animais (Gn 1.20,30), o homem (Gn 2.7; Gn 6.17) e os seres angelicais (Ap 5.13). A palavra חי (chay) utilizada no Antigo Testamento para ser vivo, vida, criatura ou ser vivente, aparece mais de quinhentas vezes no Antigo Testamento. Já no Novo Testamento, a palava κτισις (ktisis) aparece dezenove vezes, sendo traduzida como coisas individuais, seres, uma criatura ou uma criação. Portanto, somos criaturas no sentido de um ser vivo criado, porém, diferimos dos animais ou seres angelicais, pois fomos criados à imagem e semelhança do Criador.
Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura. – Gl 6.15
Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. – 2Co 5.17
Percebemos nestes textos, que Paulo não afirma que deixamos de ser criaturas, pelo contrário, afirma que nos tornamos uma nova criatura. É importante ressaltar, que mesmo após a queda, a humanidade continuou carregando em si a capacidade inerente aos atributos divinos. Porém, desde então, permanece em um estado em que está “destituída da glória de Deus” (Rm 3.23). Apesar de continuarmos sendo humanos após a queda, estávamos em um estado de rebelião contra Deus. Ao abandonarmos o lugar pactual da relação íntima e profunda com o Deus Trino, deixamos de ser portadores da glória de Deus, e assim, participantes da herança de seu Filho. Desta forma, nos tornamos criaturas caídas, sem a vida do Espírito, e portanto, sem esperança.
Por isso, o processo da regeneração é uma ação direta do Espírito Santo no interior do homem. Não é o homem que se autorregenera, mas é Deus que o torna um ser regerado. É a partir dela que surge uma nova formação do coração e dos desejos do homem. (SMITH, 2018)
Pelo pecado original, o homem herdou a morte; mas Deus, por amor, providenciou o meio de recriar o homem (Rm 6.23).
A regeneração, ou o novo nascimento, é o ato onde o Espírito Santo produz em nós uma nova vida, consagrada a Deus. Em outras palavras, restaura em nós a condição original, porém não na dimensão do primeiro Adão, mas do segundo Adão (Cristo), que é muito mais gloriosa.
No entanto, a morte reinou desde a época de Adão até os dias de Moisés, mesmo sobre aqueles que não cometeram pecado semelhante à desobediência de Adão, o qual era uma prefiguração daquele que haveria de vir. Contudo, não há comparação entre o dom gratuito e a transgressão. Pois, se muitos morreram por causa da desobediência de um só, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, transbordou para multidões! (…) Assim como por meio da desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também, por intermédio da obediência de um único homem, muitos serão feitos justos. – Rm 5.14-15,19
Da mesma forma, está escrito: “Adão, o primeiro homem, foi feito alma vivente”; o último Adão, no entanto, é espírito vivificante! Assim, não foi o espiritual que veio primeiramente, mas sim o natural; depois dele então, chegou o espiritual. O primeiro homem foi formado do pó da terra, o segundo homem é dos céus. Os que são da terra são semelhantes ao homem terreno; os que são dos céus, ao homem celestial. Assim como obtivemos a imagem do homem terreno, receberemos de igual modo a imagem do homem celestial – 1Co 15.45-49
O processo de nos tornamos uma criatura renascida, envolve a mudança de natureza, propósito e caminho. Este processo acontece em Cristo (2Co 5.17), sendo uma obra do Espírito que nos une a Ele. É por causa da regeneração, ou seja, por causa da obra de Cristo na qual somos criados em verdadeira justiça e santidade (Ef 4.24), que a glória da qual estávamos destituídos se torna novamente parte de nós.
A regeneração produz efeitos posicionais, espirituais e práticos. Os efeitos posicionais são a condição de filho de Deus por adoção (Jo 1.12-13; Rm 8.16; Gl 4.6); como filho, o crente é também herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo (…). Os efeitos espirituais são as virtudes que o crente recebe do Senhor na sua alma (Gl 2.20). Ele é fortalecido “no Senhor e na força do seu poder” (Ef 6.10; 3.16-19). O efeitos práticos aparecem na vida do crente no dia-a-dia. Ele busca viver a vida de justiça, santidade, amor e verdade (Ef 4.22) Ele pratica o amor fraternal, serve a Cristo e aos irmãos. Produz as obras que são o fruto da vida em Cristo. (SEVERA, 1999).
Conclusão
É importante nutrirmos uma perspectiva correta sobre a realidade da regeneração. E isto envolve principalmente a nossa perspectiva sobre nossas práticas culturais. A grande dúvida é se uma cultura pode ser completamente regenerada ou não. Precisamos, portanto, olhar com muita atenção a atuação do Espírito no ato do novo nascimento no interior do homem. Na perspectiva teológica, isto envolve a restauração do homem, por causa do pecado original, que afetou a natureza humana. Está relacionado exclusivamente ao homem e não a criação. O conceito de novos céus está atrelado a restauração de todas as estruturas originais, enquanto a regeneração está relacionado ao restabelecimento da imagem e semelhança de Deus no homem.
A disciplina formativa começa com a realidade de que a maior necessidade dos nossos filhos é a regeneração; esse entendimento levará a uma educação que vai além do behaviorismo de Skinner, Rogers e Jung (o que infelizmente, tem si do a base de muitos conselhos sobre a criação desfolhos em décadas recentes). O júnior não desobedece porque esteja mal humorado, cansado ou faminto, ou porque não tenha sido condicionado corretamente; desobedece porque é descendente de Adão (BAUCHAM JR, 2015).
Por causa da natureza caída do homem, é que a anomalia se estabeleceu na criação. A partir deste contexto de rebelião, é que todas as estruturas desenvolvidas pela humanidade surgem. Por isso a expressão espírito vivificante (1Co 15.45), é muito relevante para nossa compreensão sobre este aspecto. O termo ζωοποιεω (zoopoieo) traduzida como vivificante, remete a ideia de um poder espiritual que nos reveste com novos e maiores poderes de vida.
Portanto, a regeneração no aspecto salvífico, envolve um novo poder de vida operando em nós, que permite que tudo o que realizamos em Cristo, comunique a sua vida e promova vida aos lugares onde a morte opera. Somente os filhos de Deus, renascidos da água e do Espírito, podem reconstruir ambientes afetados pelo estado pecaminoso dos filhos de Adão. Pois a partir de sua nova posição em Cristo, se tornam ministros governantes do Reino de Deus, atuando nos reinos do mundo, preparando um ambiente para que em seu devido tempo, Cristo venha e estabeleça seu reino definitivo na terra.
Quais são as evidências de que você é de fato um renascido?
Referências Bibliográficas
Baucham Jr, Voddie. Pastores da Família: chamando e preparando homens para liderar seus lares. Trad. Josaías Cardoso Ribeiro Jr. – Brasilia, DF: Editora Monergismo, 2015
Bíblia de Estudo do Discipulado. – Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2019
Bíblia Judaica Completa. – São Paulo, SP: Editora Vida, 2010.
Horton, Michael. A Grande Comissão. – São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2014
Ladd, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Ed.rev. – São Paulo, SP: Hagnos, 2003.
Murray, Andrew. O Espírito de Cristo: Entendendo a ação do Espírito de Deus na vida do cristão e da Igreja. Curitiba, PR: Publicações Pão Diário, 2013.
Severa, Zacarias De Aguiar. Manual de Teologia Sistemática. – Curitiba, Pr: AD Santos Editora, 1999.
Smith, James K.A. Desejando o Reino: Culto, Cosmovisão e Formação Cultural. – São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 2018.