A cidade de Antioquia, na época do Império Romano, era a capital da Síria. Estrategicamente, era a conexão entre o Leste e Oeste (BRUCE, 2009). Fundada em 300 a.C., tinha uma grande comunidade judaica a qual tinha os mesmos privilégios políticos dos gregos.
Os cidadãos desta cidade eram reconhecidos como rudes no trato de questões do cotidiano, e também eram bastante depreciativos em sua maneira de criar apelidos para as pessoas. Na região de Antioquia estava Dafne, o famoso templo de Apolo (BUCKLAND, 1981), um dos principais deuses da mitologia grega. Apolo, para os gregos, era o símbolo da inspiração profética e artística. Também era reconhecido como o sol e a luz, a verdade e o legislador dos aspectos legais da religião e das cidades, o perdoador de pecados, o deus da morte e da vida, das doenças e da cura, o deus da beleza e da perfeição, da harmonia e do equilíbrio, da razão e da natureza.
Em Antioquia da Síria, a expressão da Igreja se tornou global, sendo citada como a base de envio dos missionários que proclamariam o evangelho entre os gentios. A partir de Antioquia, as tendas da Igreja de Cristo se alargaram, e continuam se estendendo até os confins da terra em nossos dias.
Para compreendermos melhor como este processo se desenvolveu, iremos trabalhar 4 pontos importantes do Testemunho da Igreja em Antioquia.
- A Proclamação do Evangelho;
- O Compromisso com as Diretivas Proféticas;
- A Construção de um Ambiente Espiritual;
- Uma Plataforma Missional Global
A Proclamação do Evangelho
O martírio de Estevão trouxe um profundo impacto sobre a dinâmica da Igreja na terra. Estevão foi assinado por causa da sua fé, mediante a acusação de judeus zelosos. Esta perseguição violenta, fez com que muitos discípulos deixassem Jerusalém em direção a outras cidades. Este movimento migratório possibilitou que o Evangelho fosse proclamado em outras localidades, inicialmente entre os judeus, e posteriormente aos gentios.
Saulo de Tarso, em seu zelo religioso, liderou esta perseguição e também aprovou o apedrejamento de Estevão. A perseguição que tinha como objetivo interromper a proclamação do Evangelho, na verdade, trouxe maior amplitude de atuação dos discípulos. Vemos em seguida Filipe ministrando em Samaria e evangelizando o eunuco Etíope, bem como, a narrativa da conversão de Saulo. Na medida que novos convertidos são acrescentados, as fronteiras geográficas da Igreja são ampliadas.
Então, os que haviam sido dispersos por causa da perseguição, desencadeada com a execução de Estevão, se espalharam até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não divulgando a mensagem a ninguém além dos judeus. Alguns deles, entretanto, eram de Chipre e de Cirene, e que chegaram até Antioquia, pregaram também aos gregos, apresentando-lhes o Evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos creram e se converteram ao Senhor. Assim que a notícia desse fato chegou ao conhecimento da igreja em Jerusalém, eles decidiram enviar Barnabé à Antioquia. Tendo ele chegado e, vendo a graça de Deus, alegrou-se e encorajava a todos, para que permanecessem fiéis ao Senhor, com firmeza de coração. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E uma multidão considerável de pessoas foi acrescentada ao Senhor. E aconteceu que Barnabé decidiu viajar para Tarso, a fim de encontrar-se com Saulo e, assim que o achou, levou-o consigo para Antioquia. Então, durante um ano completo, Barnabé e Saulo se reuniram com aquela igreja e ensinaram a muita gente. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos. – At 11.19-26
A Igreja até então constituída somente de judeus convertidos, após alguns anos, começou a ter pessoas de outras etnias inseridas em seu contexto social. É preciso compreender que para os apóstolos isto foi extremamente desafiador, por isso, quando as primeiras conversões de gregos começam a ocorrer em Antioquia, eles resolveram enviar Barnabé para avaliar o que estava ocorrendo nesta cidade.
O Compromisso com as Diretrizes Proféticas
Com a expansão do evangelho entre os gentios, homens de Jerusalém começaram a serem enviados a Antioquia para servir nas demandas da igreja local. Barnabé foi ao encontro de Paulo em Tarso, com objetivo de trazê-lo para Antioquia, para ele cooperasse com a proclamação do Evangelho entre os gentios e a instrução dos novos convertidos.
Naqueles dias desceram alguns profetas de Jerusalém para Antioquia. Um deles, chamado Ágabo, levantou-se e pelo Espírito predisse que uma grande fome assolaria a todo mundo romano, o que de fato veio a ocorrer nos dias do reinado de Cláudio. Então, os discípulos, cada um segundo as suas possibilidades, resolveram providenciar ajuda para os irmãos que viviam na Judeia. E assim o fizeram, enviando suas ofertas aos presbíteros pelas mãos de Barnabé e Saulo. – At 11.27-30
É interessante destacar, o zelo que os primeiros gentios tiveram com a palavra profética, a qual foi liberada pelo Espírito através de Ágabo. Eles não apenas aceitaram a palavra anunciada, como também generosamente, mobilizaram recursos para serem enviados a igreja na Judéia, se antecipando ao cenário de fome que se estabeleceria.
Barnabé, que anteriormente vendeu uma propriedade, e investiu todo o recurso no suprimento das necessidades das famílias e da igreja (At 4.32-37), foi incumbido pela transporte e entrega dos recursos destinados à Igreja na Judéia.
A Construção de um Ambiente Espiritual
Na Igreja em Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, conhecido por seu segundo nome, Niger, Lúcio de Cirene, Manaém que era irmão de criação de Herodes, o governador, e Saulo. Enquanto serviam, adoravam e jejuavam ao Senhor, o Espírito Santo lhes ordenou: “Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a missão a qual os tenho chamado”. – At 13.1-2
Estes homens experimentados na palavra e na profecia perseveravam ministrando a Deus juntos. Precisamos, por meio da vida destes homens, entender a dinâmica da construção de uma vida piedosa. É preciso cultivar uma relação pessoal com Deus, íntima e profunda. Neste processo nos apresentamos a Deus para conhece-lo através da revelação do seu Ser, e da transformação de nosso ser na medida que nos apresentamos “desnudos” diante Dele. É a jornada pessoal e intransferível da qual precisamos nos autoresponsabilizar.
Porém, precisamos entender que o lugar secreto não substitui o lugar do serviço coletivo, e vice-versa. “Precisamos reconhecer que o Cristianismo moderno é mais uma religião de conveniência do que um serviço sacerdotal a Deus” (KATS, 2020). Atualmente a heresia do “eu sou igreja” tem sido como um câncer, que tem se alastrado na mentalidade altiva e pós moderna de grande parte da igreja evangélica. A Bíblia cita que somos um povo sacerdotal, e que por isso, não deve deixar o lugar da congregação como é costume de alguns (Hb 10.24-25), pois ela é o lugar coletivo do serviço a Deus.
Se não cultivo o lugar secreto, não entendo o princípio e a importância do congregar. Se não permaneço na congregação, não conheço a Deus e nem a seu Filho, e por isso faço do lugar secreto meu santuário pessoal dedicado ao deus que criei para mim mesmo.
Estes homens de Antioquia, compreenderam a relevância da construção deste ambiente coletivo, permanecendo em uma postura litúrgica, isto é, cumprindo seu ministério/ofício público diante de Deus. Mas este serviço envolvia abstenção de alimentos e dedicação da vida, bem como, estava fundamentado sobre a realidade do Espírito, segundo nosso comprometimento com a verdade de quem Ele é (Jo 4.23).
Uma Plataforma Missional Global
Neste ambiente espiritual, construído a partir do serviço sacerdotal de homens fiéis, o Espírito ordenou que fossem separados Paulo e Barnabé, dois amigos de jornada com coração totalmente rendidos a Deus e a sua causa, para serem enviados em missão.
Atualmente muitas pessoas estão indo em missão sem serem enviadas pelo Espírito. Se esquecem que “a lei do reino não mudou. Ainda é o Espírito Santo quem está encarregado de todo trabalho missionário. Ele revelará Sua vontade na designação de tarefas e na seleção daqueles que estão esperando no Senhor” (MURRAY, 2013)
Paulo não somente recebeu revelações com respeito a natureza e constituição da Igreja (…), mas também foi o grande estrategista missionário, a quem Deus confiou o seu plano de anunciar o kerigma (proclamação do evangelho) aos gentios. Ele viu a necessidade de se estabelecerem centros de testemunho em portos movimentados e outros centros de comunicação, contando com os dons que o Espírito Santo iria despertar nas novas igrejas – não somente para edificação dos crentes, mas também para a difusão do Evangelho nas regiões circunvizinhas. – (BRUCE, 2009)
Neste ato de envio, a Igreja esteve presente, porque ela é a plataforma de missões, a instituição legitimamente divina que possui as chaves do Reino dos céus para ligar e desligar. É na Igreja de Cristo que está a multiforme sabedoria de Deus, e onde nós somos capacitados para administrar os dons que recebemos, para sermos bons dispenseiros desta multiforme sabedoria (1Pe 4.10).
É preciso ter a “consciência que a missão não é monopólio de ninguém, pois todos são protagonistas da missão” (FABRIS, 1979), mas também precisamos reconhecer que a autoridade de Cristo se estende ao corpo de Cristo, que é a sua Igreja.
Por isso, foi a partir do Testemunho da Igreja em Antioquia que a história da Igreja continua sendo escrita em nossos dias. O mesmo Espírito que comissionou e enviou Paulo e Barnabé, continua escrevendo esta história através de nós.
Conclusão
Que tipo de comunidade de fé precisamos nos tornar? Como a Igreja em Antioquia sinaliza os passos que nós da Missão Mobilização precisamos dar? Gostaria de propor a todos nós, quatro ações práticas, para que intencionalmente e estrategicamente, possamos desenvolver em nossa comunidade local:
-Precisamos elevar nosso comprometimento pessoal com a proclamação do Evangelho, mesmo em meio ao contexto pandêmico;
-Precisamos elevar nosso compromisso com as diretrizes proféticas, a respeito das instruções que o Espírito tem trazido sobre a Igreja neste tempo, investindo nosso tempo e recursos no que Deus tem nos comunicado;
-Precisamos perseverar no lugar público do serviço sacerdotal, planejar estrategicamente, e trabalhamos juntos na construção deste ambiente. Não devemos abdicar de nosso DNA de ensino e profecia, pois eles potencializam nossa capacidade mobilizadora;
-Precisamos compreender a importância do ambiente local de adoração congregacional, e nos movermos segundo as sinalizações do Espírito, nos tornando assim, corresponsáveis pelo envio de famílias, que promovam avanço do Evangelho do Reino e novas expressões da Igreja de Cristo, em outras localidades até os confins da terra.
Vamos juntos!
Referências Bibliográficas
BRUCE, FF. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo, SP: Editora Vida, 2009
BUCKLAND, Rev. A.R. Dicionário Bíblico Universal. São Paulo, SP. Editora Vida, 1981
KATZ, Arts. Fundamentos Apostólicos. São Paulo, SP: Editora Impacto, 2020.
MURRAY, Andrew. O Espírito de Cristo: Entendendo a ação do Espírito de Deus na vida do cristão e da Igreja. Curitiba, PR: Publicações Pão Diário, 2013.